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domingo, 23 de junho de 2013

Lenda de São Vicente e dos Corvos (Lisboa)


Em tempos muito antigos, quando o rei Rodrigo perdeu a batalha de Guadalete e os Mouros ocuparam a Península Ibérica e ordenaram que todas as igrejas fossem convertidas em mesquitas muçulmanas, os cristãos de Valência, entre eles um deão (decano), quiseram pôr a salvo o corpo do mártir S. Vicente que estava guardado numa igreja.

Com intenção de chegarem às Astúrias por barco, fizeram-se ao mar levando consigo o corpo do santo. Cruzaram o Mediterrâneo sem perigo, mas quando chegaram ao Atlântico o mar estava mais turbulento e foram forçados a aproximar-se da costa. Perguntaram então ao mestre da embarcação qual era aquela terra tão bela e aquele cabo que avistavam.

O mestre respondeu-lhes que a terra se chamava Algarve e que o cabo se chamava promontório Sacro. Foi então que os cristãos de Valência consideraram a hipótese de desembarcar, construir um templo em memória de S. Vicente e dar o nome do santo ao cabo mais ocidental, junto ao promontório de Sagres. Mas enquanto estavam nestas considerações, o barco encalhou, o que os forçou a passar ali a noite.

Na manhã seguinte, quando se preparavam para retomar viagem, avistaram um navio pirata. O mestre da embarcação propôs-lhes afastar-se com o navio para evitar a abordagem dos corsários, enquanto os cristãos se escondiam na praia com a sua relíquia. Depois viria buscá-los. Mas o barco nunca mais voltou e os cristãos ficaram naquele lugar, construíram o templo em memória de S. Vicente e formaram uma pequena aldeia à sua volta, isolados naquele lugar ermo.

Entretanto D. Afonso Henriques entrou em guerra com os mouros do Algarve e estes vingaram-se dos cristãos de S. Vicente, arrasando-lhes a aldeia e levando-os cativos. Passados cinquenta anos um cavaleiro veio avisar D. Afonso Henriques que existiam cativos cristãos entre os prisioneiros feitos numa batalha contra os Mouros.

Chamados à presença do rei, o deão, já muito velho, contou-lhe a sua história e confidenciou-lhe que tinham enterrado o corpo de S. Vicente num local secreto. Pedia ao rei que resgatasse o corpo do mártir para um local seguro. D. Afonso Henriques aproveitou um período de tréguas na sua luta contra os Mouros e zarpou num barco com o deão a caminho de S. Vicente.

Mas o deão morreu durante a viagem e sem saber o local exacto onde estava enterrado o santo, D. Afonso Henriques aproximou-se do cabo e das ruínas do antigo templo. Foi então que avistou um bando de corvos que sobrevoavam um certo lugar onde os seus homens escavaram e encontraram o sepulcro de S. Vicente, escondido na rocha.

Trouxeram o corpo de S. Vicente de barco para Lisboa e durante toda a viagem foram acompanhados por dois corvos, cuja imagem ainda hoje figura nas armas de Lisboa em testemunho desta história extraordinária.     
 
 
                                                                              
 

segunda-feira, 3 de junho de 2013

A lenda da Sopa da Pedra (Almeirim)

 
 Era uma vez um viajante que andava de país em país, de terra em terra. Um dia quando estava de passagem por uma pequena aldeia reparou que a sua comida tinha acabado, e já estava a ficar com muita fome.

Foi andando de um lado para o outro a pensar numa forma de arranjar comida. Tinha muita vergonha de ir pedir, mas parecia que daquela vez não tinha outra hipótese.

Enquanto ia andando deu um pontapé numa pequena pedra que estava no chão, era uma pedra muito lisa e bonita, foi então que teve uma ideia de conseguir almoçar sem sentir tanta vergonha.

Bateu à porta de uma casa, que parecia ser de um grande agricultor da região.
Quando o dono da casa abriu a porta o viajante disse-lhe:
– Bom dia senhor, eu sou viajante e trago comigo uma pedra mágica capaz de fazer a melhor sopa do mundo, quer provar?

Ao dizer isto retirou do bolso uma pedra muito lisa e redonda. Era parecida com outras que o agricultor conhecia, mas como gostava muito de sopa decidiu aceitar provar a tal melhor sopa do mundo.
O viajante entrou e pediu uma panela grande com água e um pouco de sal, colocaram a panela ao lume e a pedra lá dentro. Quando a água começou a ferver o viajante provou e disse:

– Está quase pronta, mas ficava ainda melhor se lhe pusermos umas batatas.
– Oh homem! Não seja por isso, eu sou um grande agricultor desta região, batatas é coisa que não me falta.
– Obrigado, assim a sopa vai ficar muito melhor.

Passado mais algum tempo voltou a provar.

– Está quase, mas ficava ainda melhor se lhe pusermos umas cenouras

O agricultor lá foi buscar as melhor cenouras que tinha em casa.
Após provar várias vezes o viajante foi pedindo outros vegetais, couve, cebola, feijão, entre outros. Quando a sopa já estava rica em vegetais, o viajante disse:

– Caro amigo, a sopa está a ficar uma delícia.

O agricultor mal podia esperar para provar a sopa, que é uma coisa que ele adora.
O viajante após provar mais uma vez pediu:

– Oh amigo esta sopa ficava ainda melhor se lhe pusermos um pouco de carne de porco, tem ai alguma coisa? Chouriço, por exemplo.
– Mau, mau, já lhe disse que sou agricultor, coisas dessas não faltam cá em casa.

Mais uma vez foram colocando algumas carnes na sopa.
Provou mais uma vez e disse com um grande sorriso:

– Está pronta!!!
– Já não era sem tempo, vamos lá provar essa sopa

O viajante serviu a sopa para os dois.
Depois de a provar, o agricultor exclamou:

– Tinha razão, é mesmo a melhor sopa que já comi até hoje, essa sua pedra é realmente mágica. Não me a quer vender?
– Não está à venda, é muito valiosa para mim, foi-me oferecida por um mago de um país distante.
– Muito bem, obrigado na mesma por me ter deixado provar esta sopa.
– Obrigado eu.

Despediram-se e o viajante continuou a sua viagem por outras terras, utilizou várias vezes a sua pedra mágica e assim conseguiu comer sem ter vergonha de pedir e foi desta forma que a receita da sopa de pedra foi passando de terra em terra e hoje ainda a podemos provar em vários locais, com diferentes receitas.
 
 
 
 
 

 

Aprende a fazer esta receita saborosa que faz parte das 7 maravilhas da gastronomia Portuguesa.



Ingredientes:

•1/2 l de feijão-encarnado
•1 kg de orelha e cabeça de porco
•200 g de entrecosto
•250 g de carne de vaca para cozer
•100 g de toucinho entremeado
•1 chouriço
•1 morcela
•1 couve-lombarda
•400 g de batatas
•2 cenouras
•2 cebolas
•2 dentes de alho
•sal q.b.
•1 farinheira
•hortelã e coentros q.b. (facultativo)

Confeção:

De véspera raspam-se e limpam-se bem a orelha e cabeça de porco, salgam-se juntamente com o entrecosto e põe-se o feijão de molho. No dia seguinte lavam-se as carnes e os enchidos e põem-se a cozer em água e sal. Separadamente, põe-se também o feijão a cozer em água. À medida que forem cozendo, vai-se retirando as carnes sucessivamente, para não se espapaçarem, visto que a carne de porco coze muito mais depressa que a de vaca, o mesmo acontecendo com a morcela em relação ao chouriço. Logo que se retirarem todas as carnes, juntam-se cortadas em pedaços, a couve, as cenouras, a cebola, os alhos picados, e algum tempo depois as batatas também em pedaços. Entretanto, escorre-se o feijão, do qual se retiram duas conchas que se passam no passe-vite. Quando os legumes estiverem cozidos juntam-se-lhe os feijões inteiros e os passados. Deixa-se ferver tudo para apurar e retifica-se de sal. Cortam-se as carnes de porco e de vaca em bocados, os enchidos em rodelas e o toucinho em fatias. Deitam-se as carnes na panela e, logo que levantar fervura, adicionam-se os enchidos e o toucinho, servindo-se imediatamente. Empregando a farinheira deve pôr-se a cozer juntamente com as carnes, tendo em conta que o seu tempo de cozedura é muito rápido. Temperando com coentros, devem deitar-se ao mesmo tempo que os legumes. Se for o caso de se empregar hortelã, basta juntar um ramo ao mesmo tempo que os enchidos. Por gracinha põe-se em cada prato uma pedra redonda, tipo seixo rolado do rio, mas previamente bem lavada.
 
 Receita retirada do ROTEIRO GASTRONÓMICO DE PORTUGAL
 
 
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sábado, 1 de junho de 2013

A Bela e a Cobra (Conto Tradicional Português).



Era uma vez um rei que tinha três filhas, uma das quais era muito formosa e ao mesmo tempo dotada de boas qualidades. Chamava-se Bela. O rei tinha sido muito rico, mas, por causa de um naufrágio, ficou completamente pobre.

Um dia foi fazer uma viagem; antes porém perguntou às filhas o que queriam que ele lhes trouxesse.
 
– Eu, disse a mais velha, quero um vestido e um chapéu de seda.

– Eu, disse a do meio, quero um guarda-sol de cetim.

– E tu que queres? – perguntou ele à mais nova.

– Uma rosa tão linda como eu, respondeu ela.

– Pois sim, disse ele.

E partiu.

Passado algum tempo trouxe as prendas de suas filhas, disse à mais nova:

– Pega lá esta linda rosa. Bem cara me ficou ela!

Bela ficou muito preocupada e perguntou ao pai por que é que lhe tinha dito aquilo. Ele, a princípio, não lho queria dizer, mas ela tantas instâncias fez, que ele lhe respondeu que no jardim onde tinha colhido aquela rosa encontrou uma cobra, que lhe perguntou para quem ela era; que ele lhe respondeu que era para a sua filha mais nova e ela lhe disse que lha havia de levar, se não que era morto. Depois disse ela:

– Meu pai, não tenha pena, que eu vou.

Assim foi. logo que ela entrou naquele palácio, ficou admirada de ver tudo tão asseado, mas ia com muito medo. O pai esteve lá um pouco de tempo e depois foi-se embora. Bela, quando ficou só, foi a uma sala e viu a cobra. Ia-se a deitar quando começaram a ajudarem-na a despir. Estava ela na cama quando sentiu uma coisa fria; deu um grito e disse-lhe uma voz: – Não tenhas medo.

Em seguida foi ver o que era e apareceu-lhe uma cobra. Ela, a princípio, assustou-se, mas depois começou a afagá-la. Ao outro dia de manhã apareceu-lhe a mesa posta com o almoço. Ao jantar viu pôr a mesa, mas não viu ninguém; a noite foi-se deitar e encontrou a mesma cobra. Assim viveu durante muito tempo, até que um dia foi visitar o pai; mas quando ia a sair ouviu uma voz que lhe disse:

– Não te demores acima de três dias, senão morrerás.

Ia a continuar o seu caminho e já se esquecia do que a voz lhe tinha dito. Chegou a casa do pai. Iam a passar três dias quando se lembrou que tinha de tornar; despediu-se de toda a sua família e partiu a galope; chegou lá à noite, foi-se deitar, como tinha de costume, mas já não sentiu o tal bichinho. Cheia de tristeza, levantou-se pela manhã muito cedo, foi procurá-lo no jardim e qual não foi a sua admiração vendo-o no fundo dum poço! Ela começou a afagá-lo chorando; mas, quando chorava, caiu-lhe uma lágrima no peito da cobra; assim que a lágrima lhe caiu a cobra transformou-se num príncipe, que ao mesmo tempo lhe disse:

– Só tu, minha donzela, me podias salvar! Estou aqui há uns poucos de anos e, se tu não chorasses sobre o meu peito, ainda aqui estaria cem anos mais.

O príncipe gostou tanto dela que casou com ela e lá viveram durante muitos anos.
 
 
 

 

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segunda-feira, 13 de maio de 2013

quarta-feira, 8 de maio de 2013

A Lenda do Arco íris

 
 João era pobre. O pai tinha morrido, e era muito difícil a mãe manter a casa e sustentar os filhos. Um dia, ela pediu-lhe que fosse pescar alguns peixes para o jantar. João reparou numa coisa a mexer-se no meio do arvoredo. Aproximou-se sorrateiro, abaixou-se, afastou as folhas devagarinho e viu um pequeno homem sentado num minúsculo banco de madeira. Costurava um colete verde com um ar compenetrado enquanto cantarolava uma musiquinha. À frente de João, estava um anão. Rapidamente, esticou o braço e prendeu o homenzinho entre os dedos.
— Boa tarde, meu senhor.
— Como estás, João?, respondeu o homenzinho com um sorriso malicioso.
Mas o anão tinha montes de truques para se libertar dos humanos. Inventava pessoas e animais a aproximarem-se, para que desviassem o olhar e ele pudesse escapar.
— Diz-me lá, onde fica o tesouro do arco-íris?
Ele, então, gritou para João que vinha lá um touro bravo a correr bem na sua direção. Ele se assustou, abriu a mão, e o anão desapareceu. João sentiu uma grande tristeza, pois quase tinha ficado rico. E, com essas andanças, voltou para casa de mãos a abanar, sem ter pescado peixe nenhum. Mal chegou, contou à mãe o sucedido. Esta, que já conhecia a manha dos anões, ensinou-o:
— Se alguma vez o encontrares, diz-lhe que traga o tesouro imediatamente.
Passaram-se meses. Até que um dia, ao voltar para casa, sentiu os olhos ofuscados com um brilho intenso. O anão estava sentado no mesmo pequeno banco de madeira, só que dessa vez consertava um dos seus sapatos.
— Cuidado! Vem lá o gavião!, gritou o anão, fazendo uma cara de medo.
— Não me tentes enganar!, disse João. Traz já o pote de ouro! Traz já o pote de ouro ou eu nunca mais te solto.
— Está bem!, concordou o anão. Desta vez ganhaste!
O pequeno homem fez um gesto com a mão, e, imediatamente, um belíssimo arco-íris iluminou o céu, saindo do meio de duas montanhas e terminando bem aos pés do João. As sete cores eram tão intensas que até esconderam o pequeno pote de barro, cheio de ouro e pedras preciosas, que estava à sua frente. O anão abaixou-se, com o chapéu fez-lhe um aceno de despedida e gritou, pouco antes de desaparecer para sempre:
— Adeus, João! És um menino esperto! Terás sorte e serás feliz para sempre!
E foi o que aconteceu. O pote de ouro nunca se esgotou, e João e a sua família tiveram uma vida de muita fartura e de muita alegria.

(Versão do original irlandês)  
 
 

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Dois Patos e Uma Tartaruga


Descontrai-te, mantém-te imóvel e ouve - ouve com atenção esta história  sobre uma tartaruga que vivia num grande  lago cheio de água clara e fresca. Mas isso foi até acontecer uma coisa muito estranha! O que poderia ter sido? Vamos lá ver se conseguimos descobrir!

Então...esta tartaruga viveu há muito, muito tempo, num país longínquo muito quente. Durante muitos anos, ela viveu satisfeita a  nadar preguiçosamente pelo grande lago, ou a tomar banhos de sol, em cima de uma das grandes e verdes folhas de lírio que cobriam a sua superfície. Por vezes, abocanhava uma libelinha que passava, ou tentava apanhar um gordo e apetitoso escaravelho aquático para comer.

A vida era agradável para a tartaruga. Até que num Verão extremamente quente e seco, a chuva parou e o sol brilhou com tal intensidade, que a água clara e fresca do lago começou a secar. Pouco a pouco, o lago tornou-se mais pequeno. Todos os dia  estava mais e mais seco, cada vez  mais pequeno, até que
um dia, havia tão pouca água que a tartaruga decidiu procurar uma nova casa, antes que o lago desaparecesse de vez. Mas de que maneira poderia ela fazê-lo?

Uma manhã bem cedo, quando o sol apareceu no céu, a tartaruga se preparou para procurar ajuda. De repente, ouviu dois patos que grasnavam ruidosamente um para o outro - qüéim, qüéim, qüéim -, enquanto voavam por cima dela. Sem pensar duas vezes, a tartaruga chamo-os:
- Patos! Ei, vocês aí em cima! Por favor, ajudem-me! A minha casa está a secar. Será que vocês me poderiam levar para um outro lago cheio de água?
- Mas como podemos fazer isso? - responderam os patos. - Nós estamos a voar cá em cima e tu estás aí em baixo.

No momento em que tudo isso acontecia, a tartaruga tropeçou num pau bem comprido que estava no meio do caminho e teve uma ideia:
- E se vocês transportassem este pau nos vossos bicos? - sugeriu. - Assim eu poderia agarrar-me no meio com a boca e vocês levavam-me para outro lago.

- É uma boa solução - concordaram os patos, aterrando ao lado dela. - Mas tu tens que nos prometer que não abrirás a boca.

E assim ficou combinado. Os patos colocaram o pau entre os dois bicos, como uma barra, na qual a tartaruga se segurou pela boca. Eles levantaram voo e transportaram a tartaruga pelo céu em direção a um lago cheio de águas claras e frescas que brilhava no horizonte.

Durante o caminho, voaram sobre um campo onde algumas crianças brincavam ruidosamente. Ao ouvirem o bater das asas dos patos, as crianças olharam para cima e desataram a rir à gargalhada com a cena estranha.
- Que ridículo! - gritou um rapaz. - Dois patos a transportarem uma tartaruga num pau! Não é ridículo?

Bom... isto fez com que a tartaruga se sentisse muito zangada. A cena poderia mesmo parecer muito esquisita, mas havia uma boa razão para tudo aquilo. Irritada, ela gritou para as crianças:
- Vocês é que são ridículos! Não entendem naaaaaada!
Assim que abriu a boca para falar, a pobre tartaruga soltou-se do pau e caiu pelo céu cheio de sol até aterrar na erva com um ruído seco.
- Ai! - exclamou ela, esfregando a cabeça dorida e magoada. - Se não tivesse dado ouvidos àquelas crianças! Agora vou pensar duas vezes antes de responder com raiva a alguém.

Muitas vezes, nos expressamos com raiva, sem refletir sobre o que pode acontecer depois. Uma pessoa sábia pensa antes de falar e, se não pode dizer nada amável, opta por ficar em silêncio.


Esta história foi retirada do livro "Buda para ler ao deitar"